segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A vida em 2070.

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Ano 2070, acabo de completar 50 anos, mas a minha aparência é de alguém de 85 anos. Tenho sérios problemas renais porque bebo pouca água. Creio que me resta pouco tempo. Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade.  Recordo quando tinha 5 anos, tudo era muito diferente, havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um  banho de chuveiro por aproximadamente meia hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele. Antes todas as mulheres mostravam as suas formosas cabeleiras, agora, raspamos a cabeça para mantê-la limpa sem água, antes meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira. Hoje os meninos não acreditam que utilizávamos a água dessa forma. Recordo que existia muitos anúncios que diziam para CUIDAR DA ÁGUA, só que ninguém lhe dava atenção. Pensávamos que a água jamais poderia terminar, agora todos os rios, barragens, lagoas e mantos aqüíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados, as infecções gastrointestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte. A industria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessanilizadoras são a principal fonte de emprego e pagam os empregados com água potável em vez de salário. Os assaltos por um litro de água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Antes a quantidade de água indicada como ideal para se beber era oito copos por dia, por pessoa adulta. Hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo, tivemos que voltar a usar as fossas sépticas como no século passado, porque a rede de esgoto não funciona mais por falta de água. A aparência da população é horrorosa: corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas que já não tem a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera. Com o ressecamento da pele, uma jovem de 20 anos parece tem 40. Os cientistas investigam mas não há solução possível. Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradável por falta de árvores, o que diminui o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos gametas de muitos indivíduos, como conseqüência, há muitas crianças com insuficiência, mutações e deformações. O governo até nos cobra pelo ar que respiramos: 137m³ por dia, por habitante adulto. Quem não pode pagar é retirado das zonas ventiladas, que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar. Não são de boa qualidade mas se pode respirar. A idade média é de 35 anos. Em alguns países restam manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exercito. A água tornou-se um tesouro muito cobiçado, mais do que o ouro ou os diamantes. Aqui não há árvores porque quase nunca chove, e quando chega a ocorrer uma precipitação, é de chuva ácida. As estações do ano foram severamente transformadas pelas provas atômicas e pela poluição das fabricas do século XX. Advertiam que era preciso cuidar do meio ambiente, mas ninguém fez caso. Quando minha filha me pede para lhe falar de quando era jovem, descrevo quão bonito eram os bosques, falo da chuva e das flores, do agradável que era poder tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda água que quisesse. O quando nós éramos saudáveis.! (‘: Ela pergunta-me: - Papai, porque a água acabou.? Então, sinto um nó na garganta. Não posso deixar de me sentir culpado, porque pertenço a geração que acabou de destruir o meio ambiente, sem prestar atenção a tantos avisos. Agora, nossos filhos pagam um alto preço... sinceramente, creio que a vida na Terra já não seja possível dentro de muito pouco tempo, porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto, enquanto ainda era possível fazer algo para salvar o nosso Planeta Terra.!


(Revista: “Crônica de los tiempos”, abril de 2002.)

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